Conversação com Cris Vector #4

Cris Vector

Os vetores ácidos de Cristiano Siqueira (mais conhecido com @crisvector). O Designer Gráfico e Ilustrador nos contou um pouco sobre como foi seu começo, referências, ativismo e como seus trabalhos tem feito um grande rebuliço pelo Brasil e afora.

Rubrica: Como e quando começou seu envolvimento com a criação de artes?
Cris Vector: Desde criança eu gosto de desenhar. Na adolescência eu achei um curso técnico de Desenho e resolvi me inscrever, pude aprender a usar as habilidades artísticas como uma profissão. Logo consegui um estágio em um estúdio de Design Gráfico e fui aprimorando as habilidades, aprendendo os softwares e toda a rotina de produção de um trabalho gráfico. Trabalhei com design editorial, design de embalagens, identidade corporativa e até com cenografia. Nem todo trabalho envolvia ilustração, que era a minha formação, mas eu sempre tentava inserir alguma ilustração nos trabalhos que chegavam até a mim. Depois de uns anos eu tive condições de investir em uma carreira solo, trabalhando apenas como ilustrador. Estou aí já há 15 anos. O ativismo é algo bem recente, coisa de 2 anos pra cá. Na verdade, eu sempre evitei assuntos de política no meu trabalho mas depois da ascensão da extrema-direita, eu achei que deveria me envolver.

Rubrica: Como funciona seu processo de criação e produção?
Cris Vector: Meu processo criativo começa com uma boa pesquisa sobre o tema. Eu realmente preciso me inteirar sobre o que estarei desenhando pra conseguir me conectar ao público que apreciará o trabalho. Então, antes de qualquer esboço eu tento aprender tudo o que eu posso sobre o assunto, faço uma boa pesquisa iconográfica pra tentar sentir como o determinado assunto é visto pelo público em geral, identificando signos comuns. Nesse processo algumas ideias já começam a brotar e vou esboçando as que são mais interessantes, pra não perdê-las. Como geralmente os trabalhos devem ser submetidos à aprovação, eu costumo refinar esses esboços para apresentação. Seleciono duas ou três boas ideias e dou um pouco mais de corpo em um rascunho. Depois de aprovado eu passo à etapa de finalização, geralmente trabalhando em vetor, que é a técnica que eu mais utilizo. O fechamento do arquivo é feito após a aprovação final. Eu corrijo as cores, dou uma revisada geral na ilustração e envio ao cliente. No caso de ilustrações pessoais, eu posso pular algumas etapas, mas a parte da pesquisa sempre toma um grande tempo do meu trabalho.

Rubrica: Que artistas do passado e atualmente te inspiram?
Cris Vector: É sempre difícil listar inspirações porque sempre são muitas e não gosto de ser injusto. Meu leque de inspirações também muda bastante ao longo do tempo. Quando eu era estudante de artes eu era fascinado pelo surrealismo do Salvador Dali e Magritte mas também me inspirava muito em quadrinistas (porque um dia achei que poderia ser quadrinista, santa inocência!) como Fank Miller, Will Eisner, Jack Kirby, Osamu Tezuka, Yoshiyuki Sadamoto, Dave McKean, quadrinhos clássicos de cowboy (agora não lembro os autores), cartunistas como Laerte, Angeli…etc. Eu também gostava muito dos posteres de Toulouse-Lautrec e toda aquela estética gráfica de pôsteres serigráficos da Belle Époque francesa e mais recentemente me inspiro bastante nos pôsteres da Rússia Socialista e nos artistas que fazem releituras dessa linguagem, como o americano Shepard Fairey. Gosto também do trabalho de artistas com alto poder de síntese gráfica, como o Glenn Jones e meu camarada de Design Ativista: Rapha Baggas. Enfim, são diversos e sempre fica alguém de fora.

Rubrica: Quais são as referências que moldaram seu estilo? Da onde você estuda/busca referências para seus trabalhos?
Cris Vector: Estilo sempre foi algo problemático pra mim. Eu sempre gostei de estudar diversos tipos de correntes artísticas e estilos gráficos e tentava adotar algum no meu trabalho. Dificilmente conseguia me manter em um só estilo. Quando comecei a me fixar em ilustração, eu achava que deveria ter um estilo como se fosse uma marca, isso me bloqueava muito e tornava meu trabalho pouco autêntico. Depois de um tempo eu apenas deixei rolar. O trabalho que eu faço hoje tem uma mistura da linguagem de quadrinhos, pop arte, pôsteres russos, design gráfico. É tudo o que eu gosto e pude estudar.

Rubrica: Como começou seu envolvimento com o ativismo? De que forma você vê suas artes impactando a outras pessoas?
Cris Vector: Como mencionei em uma resposta anterior, o envolvimento com o ativismo começou com a escalada da extrema-direita no Brasil. Até então eu evitava envolver meu trabalho em política, evitava até discutir muito sobre. Por consequência, eu até tinha posições bem contrárias às que eu tenho hoje. Mas com a ascensão da extrema-direita e, principalmente, das ideias violentas, excludentes e o flerte com o fascismo, eu comecei a sentir que, tanto eu quanto minha família e amigos, poderiam estar em risco pelo simples fato de não concordar com aquelas ideias. Decidi que deveria usar a única habilidade que eu tenho pra poder me manifestar e tentar mostrar pras pessoas que elas não deveriam apoiar aquelas ideias. Foi bem na época das eleições de 2018. Foi nessa época que conheci o Design Ativista que surgiu de uma fusão de um grupo no Facebook que reuniam designers interessados em usar suas habilidades pra influenciar a arena política e um outro grupo mais focado na campanha Anti-Bolsonaro. Foi criado um grupo de trabalho para atuar no segundo turno das eleições e aí foi onde acabei me envolvendo mais. Após as eleições, as pautas anti-fascismo continuaram e pude seguir colaborando. Também tive a oportunidade de participar em pautas mais específicas como campanhas para os povos indígenas, entre outras coisas. Sobre o impacto da minha arte sobre outras pessoas, eu não tenho uma medida muito precisa. Acredito que as artes utilizadas politicamente dão mais ênfase a alguns assuntos que possam passar batido na sociedade, é importante utilizar o trabalho gráfico para estimular a discussão sobre os temas e gerar mobilização. É o que eu tento fazer com o meu trabalho. Fico satisfeito quando vejo as pessoas compartilhando alguns trabalhos como meio de amplificar sua voz e se valendo do papel de atores dentro da arena política.

Rubrica: Que conselho você dá para quem está começando a criar seus próprios trabalhos? Considerações finais …
Cris Vector: Que sejam verdadeiros, autênticos, que usem seu trabalho artístico como extensão da sua própria voz. Que não se preocupem com estilo porque ele vem com o tempo. Que valorizem seu trabalho e cobrem o justo por ele quando for criado para fins comerciais. Que pensem muito bem sobre as propostas de trabalho em que o pagamento seja apenas divulgação (ninguém vive de divulgação!), e que procurem ser diversos no que desenham, pois isso abre mais oportunidades.

Rubrica: Muito obrigado pela sua atenção …
Cris Vector: Eu que agradeço o espaço!

Confira alguns dos trabalhos do Cris Vector:

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